"Debaixo d'água tudo era mais bonito, mais azul, mais colorido, só faltava respirar.
Mas tinha que respirar, mas tinha que respirar... todo dia"

Arnaldo Antunes

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Desculpa a demora gente
(se é que alguém se incomodou - rs)


Buenos Aires - 16/07


O ônibus que me levaria à cidade vizinha (Colônia) para pegar o barco certamente já estava na plataforma quando eu acordei no bairro vizinho.

Sonho – despertador – hora – susto – ducha – roupa – perfume – bolsa – documentos – dinheiro – porta – corredor – elevador – portaria – madrugada friiiiiiiiiiiia!!!

Adoro!

Fomos eu e meu cachecol para o ponto de ônibus. Perguntei educadamente – e pau-sa-da-men-te para uma senhora no ponto: hola, por favor, que bus puedo tomar para llegar a Três Cruces? Soy brasilleño y no conosco nada acá!!!

Pensei ter explicado o suficiente, mas dado o grupo de palavras incompreendíveis que vieram a seguir, concluí que ficaria na mão. No entanto, soube aí que eu poderia pegar o 121 e o 024, e descer antes antes do túnel. Pergunto-vos, por quê haveria um túnel numa cidade plana como aquela? Confiei! Eram 6h11, o ônibus sairia às 6h30, eu tinha um circular ainda pra pegar! Pra ajudar o circular andava a quarenta por hora no máximo, numa via vazia. Depois de quase me suicidar de ansiedade com meu próprio cachecol, o motorista me avisa que é lá!!! Corri, e cheguei às 6h27 na plataforma, às 6h29 ligou o motor, às 6h30 em ponto o ônibus saía!

Foi uma viagem bela de duas horas e quarenta minutos, o sol nasceu durante a mesma, naquele terreno plano do Uruguai, e do meu lado do ônibus (olha, vô te contá uma coisa pra você, às vezes acho que vou morrer logo, por que essa viagem foi tão cheia de poesia que parece que os deuses selecionaram tudo a dedo, amo vocês amigos – caso algo aconteça). Ao chegar ao cais, uma deliciosa solicitação em español na imigração: identidad – dei o passaporte: Brasilleño? Tarjeta de imigración (ela falou tão rápido que perguntei umas três ou doze vezes não me lembro ao certo). O caralho dessa tarjeta – cartão – é uma merda de um papel imbecil que a gente recebe na espelunca do avião, pra entrar na porra do país, agora pergunto a vocês, viados e putas leitores de dessa idiotice (rs), eu lá sabia que precisava carregar éixta porrrcaria pra sair do país?

Nunca, jamais soube disso!

Toco cagado, pedi clemência, o cara viu que era minha primeira vez fora e disse educadamente que eu tinha que pagar uma multa (que seria todo o meu dinheiro – pensei, murcho, quase desmaiado já), mas não tive de pagar nada. Entrei belo, louro e japonês para o barco.

Dei tchau a classe turística e fui para a 1a classe – falta de opção na verdade, se não fosse assim eu não viajaria, alem do mais a diferença era bem pouca. O que eram as poltronas da primeira classe??? São maiores que a minha cama quase! Um bom lugar pra fazer minha primeira travessia de barco país – país.

A ida de barco foi inebriante! É uma sensação muito diferente, não é como pegar esses barcos abertões. O Buquebus é um barco bem fechado, como um ônibus grande com lanchonete dentro. E além do mais, chegar no centro de uma cidade que você nunca viu, em outro país, pela água. Uma cidade bela como Buenos Aires, aaaaaaiiii que bons ares! E que belo material humano também - rs.

Minutos depois, lá estava eu perdido naquela cidade com um mapa na mão e tantas possibilidades. Cidade linda!!! Impecável. O antigo e o novo ligados, mas limpos - diferente do centro velho de sampa. Depois (me perdendo e tendo que pedir informações em espanhol) fui direto ao obelisco na 9 de Julio, uma avenida gigante, digamos que ele seja um... um obelisco!!! - rs. Não existe muito o que falar de templos históricos estando tão próximos do nosso país, tudo é mas ou menos da mesma época, mas o material humano... rs.

Ali mesmo, enquando fazia aquela coisa breguíssima de turista, tipo tirar vc mesmo uma foto sua com o monumento no fundo, conheci uma brasileira que ficou comigo o tempo todo lá. Vi o teatro Colón, o Palácio dos Tribunais, o túmulo da Evita, a Rua Alvear (meu Deus... pensa nos demônios do consumismo - quer dizer, não que Deus deva pensar nisso, foi só uma expressão - te atasanando para você afundar seu cartão na lama!!! Isso é a Alvear), nela você acha Chanel, ao lado de Gucci, ao lado de Vuitton ao lado de Laurent, ao lado de... aaah se eu pudesse, meu dinheiro desse, em meu armário coubesse... Outra coisa que me chamou a atenção lá pelas redondezas foi uma árvore que tem na praça em frente ao cemitério da Evita - rs. A árvore é tão grande que ocupa toda a área da praça, só que ela não tem força pra agüentar os próprios galhos (que são troncos na verdade)! Então colocaram paus apoiando os troncos da árvore para que não caiam. 

Em seguida, como não podia deixar de ser, fomos a um café!!! Estranho como tomar um café numa esquina em Buenos Aires é tão... tomar um café numa esquina em Buenos Aires!!! A arquitetura, o clima, as pessoas. Acho que passamos umas duas hora e meia tomando café em dois cafés e fumando. Muita gente pedindo esmola tb, igual aqui! Tudo teria sido perfeito se ela não tivesse me convidado para ir a uma milonga na sexta. Assim como se nada fosse: "Vamos a uma milonga sexta? Você vai enfartar!" Nesta hora eu já estava enfartado, ela estava falando de me levar até alguma maravilhosa casa de tango que estava longe de ser algo para turistas. Onde jovens e velhos se encontram e dançam até o pé sangrar a madrugada toda ao som ao vivo tb!!! Por que ela fez isso? Visto que dali uns 50 minutos eu deveria pegar o metrô que me levaria de volta até o porto.

Nos despedimos, entre convites e promessas de novos encontros peguei o metrô (que custa lá 0,90 centavos - se fosse em reais seria tipo 1,30), que era mais uma sauna seca móvel do que um metrô. Da estação passei pela Casa Rosada, imponente, com sua praça a frente cheia de imagens e recordações de protestos. Uma energia carregada quase poética.

Peguei o barco gastei meus últimos pesos argentinos com refrigerante de pomêlo e empanadas. De volta a Montevidéu!

foto: Porto Madero - Buenos Aires

sábado, 19 de julho de 2008


15/07 - veranillo
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Hoje conheci a outra parte do centro logo de manhã, assim a tarde ficou livre mas eu sabia bem como preenchê-la; con el Rio de la Plata!!!
O céu está intrigantemente perfeito por aqui! Parece até uma coisa meio "O Show de Trumman", o que me instigou um bocado mais para dar um pilo no rio. Mas antes de falar nisso, é necessário que saibam que o Rio da Prata é gigantesco, a distância de uma extremidade a outra das margens é tamanha que leva 50 minutos para atravessar se as condições climáticas estiverem boas, não se enxerga o que há do outro lado assim como o mar. No entanto, as margens aqui por perto não são muito receptivas. São somente um parapeito que dão direto na água, sem espaço para laser. Ainda assim decidi caminhar por lá quando para a minha surpresa encontrei três bancos de areia, para ilustrar, é como se fossem três micro-mini praias minimalistas - rs, e pedras. As pedras entravam adiante na água, de modo que chegando a última pedra só o que havia em frente era o horizonte. Foi pra lá que eu fui, lógico - naturalmente depois de ter me esborrachado diversas vezes nas pedras limbosas como um mamão em estado de putrefação caindo de uma árvore altíssima!!! Mas cheguei a tal pedra, com a roupa meio verde mas cheguei. Pedras malditas, isso porque eu só pisei no seco hem!
O vento, o rio, os ruídos das marolas quebrando nas pedras ao redor de mim, céu sem uma núvem sequer - ninguém por perto. Fiquei naquela contemplação por uns trinta minutos. Quando dei por conta de que a qualquer momento a maré poderia subir e umedecer as pedras assassinas, o que poderia torná-las desafios potenciais à vida - à minha naquele caso. Fui para outra mais segura, na qual repousei pensando em pessoas, saudades, sonhos e medos, e realizando que estava em outro país, sentindo todas as sensações as quais um repouso, numa pedra em "alto-mar" pode trazer... adormeci por mais ou menos uma hora e meia, a mais bem dormida uma hora e meia da minha vida.
Acordei e ouvi Memórias do Mar da Bethânia, o que me trouxe uma sensação tão boa que passei a outra uma hora e meia ouvindo várias músicas e cantando bem alto!
O sol se pôs, o vento bateu e eu fui pro hotel.

A noite conheci os bares da cidade - luxos!
As calçadas são repletas de mesas fixas, que ficam dia e noite lá, a Stella Artois aqui é de preço popular e foi com ela que me encontrei!!!
Não criando muita espectativa para uma noite de terça, ficamos só uma hora por lá, e comemos uma pizza, até porque no dia seguinte às 5h30 precisava estar de pé. Às 6h30 saía o ônibus que me levaria até o navio, que me levaria à Buenos Aires!!!

quinta-feira, 17 de julho de 2008

14/07 - curiosidades

 Incrível!!! Numa faixa de pedestres movimentadíssima em frente ao hotel perdi um tempão parado esperando parar de passar carros e ônibus e afins (não tem farol), quando percebi que talvez daria tempo pisei no asfalto, e como num passe de mágica todos pararam! Adorei a brincadeira européia, se pisar numa faixa colega, tooooooooodos param! E normalmente é o carro que cumprimenta se o pedestre deixar passar e não o contrário como no Brasil. Além do mais, os carros aqui andam com as luzes acesas sempre, tipo motos no Brasil. Por que, eu não sei! A claridade aqui é igual ou maior que aí. Estranho né?

Outra coisa, todos os comércios ficam com as portas fechadas e trancadas, TRANCADAS!!! Como assim? Deve ser pelo frio vocês podem pensar, mas hoje aqui tivemos 27 graus, mais que São Paulo hoje. É tão engraçado!!!

 

Hoje, sob um céu dolorosamente azul, conheci o centro histórico de Montevidéu. O centro era circundado por uma muralha também, que foi destruída por volta do fim do século XIX, o portão da muralha é conservado até hoje!!! O centro é um charme, parece um lugar bem europeu e limpo!!! Fui até o mercado do Porto, uma espécie de mercadão só que mais sofisticado, onde eles têm os restaurantes mais 

especializados em Parrilla, que é uma espécie de churrasco, mas servido misturado, um pouco de todos os cortes! Tenho um bocado de fotos pra mostrar. 

Hoje fui procurar luvas tb! Na primeira loja que entrei passei uma vergonhinha de leve porque estava perguntando por luvas tentando transformar a palavra o melhor possível em espanhol, tipo "tiene lubas"? Depois descobri que luvas são "guantes", nada a ver com lubas! Pelo menos luba não significa nada podre como "pinto mucho" ou "bunda suja"; por favor, tens bunda suja? Imagina - rs.

 Fomos jantar num restaurante que tocou horrores de mpb, e só pra frisar, de sobremesa comi Creme Brullé - e quebrei a casquinha igual a Amélie Poulain. O Creme tem gosto de flan mas com textura cremosa, e a casquinha é de açúcar. O sabor é orgasmático!

na foto acima: Rua 18 de julho - umas das principais da cidade que dá acesso à Ciudad Vieja

abaixo: Plaza Constitución onde se situa a catedral da cidade

terça-feira, 15 de julho de 2008

restinho do dia 13 - chegada

Pronto! Primeira surpresa do destino. Entro num guichê para saber como faço ligações a cobrar aqui (pois comprei um cartão de 25 pesos, e ainda faltando 8,22 pesos para acabar ele já bloqueou ligações para celular - ??? - sem querer gastar mais com alguém que se atrasou pra me pegar...). Alicia, a senhora simpática do guichê me cedeu o telefone de lá para ligar(!), desde que fosse rápido! Liguei, agradeci! Ela disse que eu poderia deixar o carrinho com as coisas lá se quisesse dar uma volta(!) - a questão eh que naquela saleta mal cabiam as mesas, e o carrinho ficaria na passagem, mas ela foi tão incisiva, e eu estava tão ávido por dar uma volta que cedi com facilidade! Voltando, perguntei a ela os lugares que eu poderia conhecer em Montevidéu, ela me deu aproximadamente quatro mapas diferentes e perguntou se eu não queria consultar meu e-mail(!) do computador de lá(!!!). Disse que não e ajudei-a a dobrar mapinhas, foi nesse momento também que tristemente soube que estoy muy cerca de Buenos Aires, mas, preferi esquecer essa história!!!
Fiquei um bom tempo com ela, falou-me da filha, da beleza das praias de Salvador e do caos de São Paulo, falei da sensação de pisar fora e dos sonhos no Brasil.
Hora de ir! Me despedi extremamente grato. Mulher simpaticíssima!!! Um perfeito primeiro contato!

O hotel é estonteante, fica na Plaza Independencia, no centro do centro!

na foto: vista do quarto no hotel - Rio de la Plata

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Post para os mais amigos!
 - e para os demais que quiserem morrer de tédio, afinal é só uma narração não poética dos dias que passam!

Escrevo de um café do aeroporto Carrasco no Uruguai. Pisar fora é tudo aquilo que dizem mesmo, é uma sensação bem sutil e delicada por dentro, em que parece que a qualquer momento você vai explodir e vísceras e miolos e ossos e sangue vão sujar a todos em volta de tanto que você parece estufar. É uma delícia! Ou talvez seja algo que eu sempre almejei, sei-lá! Entre toda a exaltação que sinto vem um medo básico (coisa de ser humano); será sempre assim, esse peito estufado e essa sensação de que eu poderia morrer agora, ou é pq é a primeira vez que estou em outro país?

O melhor é responder gracias, buenos, hola. A linguinha de cobrinha trançada entre os dentes!!!
Nem sempre quando se pisa fora a gente saca que está fora, já chamei garçom de "grande" e falei do tempo no elevador - em português, daí logo ouvi um, "si, si, és un tiempo asiqnovodiadeladonuotro", "aaaaaah si, buenas noches" respondi entendendo tanto quanto quem leu! Mas a primeira coisa que me fez cair a ficha foi no ônibus do avião ao aeroporto, o aviso que dizia: "PROHIBIDO FUMAR Y SALIVAR". Um friozinho na barriga por perceber q estava fora del Brazil, e uma gargalhada, o que diabos é salivar? Deve ser cuspir, claro, mas soou tão estranho de início que eu ri! Ainda que seja cuspir, que gente estranha é essa que fica cuspindo no chão das circulares a ponto de sofrer represálias.

Outra coisa engraçada é que o povo aqui adora falar português! Até tentei inglês, mas eles não falam muito. Daí tento arrastar meu aprimoradíssimo espanhol-latino-lusitano cujo alguns de vocês (felizardos) já tiveram o prazer de conhecer, eles logo falam português - me sinto quase um norte americano!!!

Bem, tem mais coisa pra escrever, mas vou postar uma por dia! Vou fazer a linha "diário", já que eh a minha primeira vez fora, posso me dar esse luxo!!!

Obs. soberba: A janela do hotel dá vista para o Rio da Prata!

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Gosto!!!

Gosto muito de falar com você!!!

Mas odeio!!!

Odeio meias palavras!!!

!!!

E agora você não responderá nada, pois é o máximo que consegue fazer

sexta-feira, 13 de junho de 2008


- Hoje cê não vai me perguntá?
- O que?
- Se eu te amo?
- Você me ama?
- Ama...?! Bom... qué dizê... cê não tem medo?
- De amá?!
- Isso não é natural. Pode vir um castigo de Deus...
- Deus?...
Toda vez que abandonei meu corpo na ponta aflita dos teus dedos
olhei pra Ele.
E Ele não tava tão carrancudo:
estava um pouco distraído,
como quem finge.
E toda vez que amoleci meu corpo pra tua ansiedade cega e rija
olhei pra Ele.
E Ele não tava tão severo:
estava um pouco atento,
como quem vê.
E toda vez que o centro do meu corpo foi inundado pelo teu prazer
olhei pra Ele.
E Ele não tava tão bravo:
estava tão sereno!
Como quem comunga.

(...)

- Ai se você me perguntasse...
Se só mais uma vez cê me perguntasse
se eu te amo...

- Não posso mais.
Tenho que ir atrás...
do vento.

(e alça vôo
na direção do sol poente)

Trechos de O Pássaro do Poente de Carlos Alberto Soffredini

domingo, 1 de junho de 2008

"Bom é não saber o quanto a vida dura
Ou se estarei aqui
Na primavera futura
.
Posso brincar de eternidade agora
Sem culpa nenhuma!"

Zélia Duncan


terça-feira, 27 de maio de 2008



mágica...

mágica... mágica... mág...


... e se seguiram histórias de borboletas e margaridas, e a noite foi mágica.


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O vinho adormecia os lábios, o fondue salgava a língua, e adoçava, e salgava. O cigarro... ah o cigarro... me entende quem se entrega a este prazer-fatal-prazer: um isqueiro falta, um gesto educado, uma pergunta, mundos novos, universos inteiramente novos ávidos para desbravar constelações e galáxias um do outro. Tantos desconhecidos numa noite jovem, tantas confidências, risos e particularidades numa madrugada outrora virgem. O instigante mundo europeu de um, a sonhada América Latina de outro, e a música clássica, e os protestos estudantis e os assuntos que a noite nos trazia à memória sem tempo a perder. E a música tocava, e era cantada e cantada. E a mágica... uma mágica ardendo tão fundo na alma, o motivo pelo qual existo.



Outra noite - outro vinho - outros cigarros - histórias de borboletas e novos caminhos - de margaridas e surpresas - de sinais.
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Uma vez, houvera entre nós, ainda que poucos soubessem, ao sul, além das fronteiras, mãos doces e talentosas, mãos latinas e francesas. Mãos estas que não poupavam dedos e sonhos para acariciar a audição e o coração de uma doce menina, sua neta, mãos talentosas, moldadas em alabastro com um toque de sonhos e mais sonhos. Era de Chopin a música que as ligava num estreito fio de alma e pra alma, e foi Chopin que tocou no aniversário de sua última despedida. Uma mão sensível tocava o piano de cauda, as mãos daquele que cedeu o espaço tão carinhosamente e sem se dar conta da saudosa melodia que tocava.


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Ela percebeu saudação da avó, nós nos emocionamos. Era qual uma benção, era uma espécie de mágica que rondava a profunda vista noturna do Ibirirapuera, eram histórias sensíveis, de sonhos, de mágica. Histórias pra poucos.


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Porque:

"Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra".


terça-feira, 20 de maio de 2008


Antes de lerem
o que vem a seguir é importante que saibam; nada, nada que pudessem escrever cantar ou dançar, se fariam palavras minhas tão fiéis quanto estas, parecem sair de meus lábios numa força tão voráz que poderia ser ouvida até no mais fundo do mais profundo oceano:
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"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí!
Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
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Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
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Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
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Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
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Não sei por onde vou,
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Não sei para onde vou
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Sei que não vou por aí!


Cântico Negro - José Régio

Imagem do filme "Um Sonho de Liberdade"

sexta-feira, 16 de maio de 2008

PRONTO!!!
Hora de desacreditar e encerrar contratos, hora de rasgar cheques e desvencilhar-me de apertos de mão!
Hora de sair do sonho e me entregar a certas realidades.
Hora de me entregar a outro sonho.
Ponto final e incial, sempre e avante!

segunda-feira, 5 de maio de 2008

"Não damos pé

Entre tanto tic-tac

Entre tanto Big Bang

Somos um grão de sal

No mar do céu...

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Calma!

Tudo está em calma

Deixe que o beijo dure

Deixe que o tempo cure

Deixe que a alma

Tenha a mesma idade

Que a idade

do céu"





Idade do Céu - Paulinho Moska

domingo, 20 de abril de 2008

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"If you kiss me where it's sore
If you kiss me where it's sore
I would feel better, better, better"
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missings
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Valeu por todos os momentos
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;-)
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sábado, 19 de abril de 2008

Selva de concreto




Viver sozinho é como fazer parte de um daqueles programas do Discovery Channel, em que tudo o que os insetos e animais devem fazer é sair à caça de sua presa e fugir do alvo dos predadores. Pode ser que haja uma presa, pode ser que não. Pode ser que haja um predador, pode ser que sim! Então é uma eterna e disputada busca, em que às vezes o estômago ronca, os pés doem e sono falha. Essa é a busca pela liberdade.
Nessa busca intorpecente encontrei leões e hienas, animas peçonhentos, selvas es
curas e belas paisagens. Me senti sozinho enquanto acompanhado e senti que nesta "batata quente", não existe pra quem jogar a bomba, e nem quem me ajudasse a lançá-la longe o bastante. No entanto, muitos estiveram ali sim; a espreita e prontos para ouvir um grito de socorro. Mas a gente é forte, ou se faz de forte, e mesmo no mais fundo abismo, o grito de socorro era sufocado pelo senso de responsabilidade. Me calei, por vezes, aos prantos.
A família pra mim sempre foi algo representativo aos redores deste redemoinho, como estátuas frias de alabastro (exceto minha mãe, a guerreira forte que sempre esteve presente), e eis que pela primeira vez em anos senti um calor que pensava não existir nos laços familiares, um calor de colo e cumplicidade, um calor de quem não espera os gritos de socorro pois te conhecem tão bem que sabem até mesmo a hora que você poderia gritar, e evitam. É o sangue, é como se a dor nas veias de um percorresse pelo outro.
Conheci novamente minha família, e me encantei! Desde os modos, os meios, os risos e a descontração, até o jeito de se preocupar e se mostrar solíscita. É como se depois de crescido reencontrasse seu berço intacto, e te esperando, ainda que você possa não caber mais.
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Amo a minha família, toda ela, com cada uma das controvérsias e desavenças. Amo a todos eles, e agradeço por terem enchido a minha alma novamente com aquele calor que tem cheiro de café da manhã e bolinhos de chuva.
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Obrigado por tudo!!! À minha mãe, família de Maringá e Curitiba.
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Claro que não devo deixar de lado a minha família paulista, esta que ainda que não ouça os gritos no mais profundo de mim, nunca deixaram de estar lá quando ouviram um. São eles:

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Alexandre Bojar
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Anaflor


André Batista


Daniela Pitteri


Diego Linhares


Laurinha
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Malu Paiva


Marcelo Bartz


Mayara Medeiros


Nêga Aparecida


Patrícia Galvão


Paula Ristori

Vera Santos
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Zeni dos Santos
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Mantenha unido
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"Eu tenho irmãos e 'uma grande família'
Que se intrometem dizendo o que eu devo fazer
Quero me mandar daqui, quero deixar esse lugar
Então quem sabe eu me esqueça dessas caras esfomeadas
Cansei de compartilhar de tudo pra ter atenção
Serei sempre o palhaço da história
Quero ser diferente
Viver sob minha responsabilidade
Mas 'mamãe' deixou claro
Que eu sempre teria um lugar pra voltar
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Me matei a maior parte do tempo
Mas a chateação fica lá
Todo mundo é estranho aqui
E a vida na cidade acaba te consumindo
Não faz idéia de como as pessoas podem ser frias
Nunca queira virar as costas
Só dão pra receber em troca
Ansiosas pra saber o quanto cobrar
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Mas quando eu fico sozinho
E preciso ser amado pelo que sou
E não pelo que querem que eu seja
Meus irmãos e 'família'
Sempre estiveram lá por mim
Temos uma conexão
Em casa é onde o coração deve estar!
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Quando eu olho pra trás, pra toda dificuldade
E toda chateação que eles me causaram
Ainda assim jamais trocaria se tivesse uma chance
Pois o sangue está acima de quaisquer outras circunstâncias
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Fique unido com sua família
Eles são a raíz de sua história
Irmãos e família, eles seguram a chave
Do seu coração e sua alma
Jamais se esqueça que sua família é como ouro!"






Música e vídeo: Keep It Together - Madonna

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Nas geadas de Curitiba!!!
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Foto em frente a cúpula do Jardim Botânico

Casquinha

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Andando em Cascavel com meu sobrinho de dois anos e meio no colo senti uma casquinha de machucado no joelhindo dele, perguntei:
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- Você se machucou?
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Ele com a boca (por dentro e fora) ocupada demais com um bis que virara um lamaçal, só acenou um não com a cabeça, insisti:
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- Mas tem um machucado aqui - e relei com a mão - como vc fez esse machucado?
- Eu fiz dodói!
- Ahhhhh tá vendo, e onde você fez esse dodói?
- Aqui - e me apontou o joelho cascudo.
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Amo meu sobrinho!!!
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quarta-feira, 26 de março de 2008

*** Primeira criação na mídia ***
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A saia que a ex-brother está usando é uma criação minha para a marca Vesúvio, enquanto era reestruturada pelo consultor de moda Maurício Lobo.

A reportagem está no site globo.com.

(a reportagem não fala da marca tá, mas eu tenho o catálogo pra provar - rsrsrs)

eis o link: http://ego.globo.com/Gente/Noticias/0,,MUL363843-9798,00-JAQUELINE+KHURY+E+RAFAEL+GALEGO+EM+CLIMA+DE+ROMANCE.html


terça-feira, 25 de março de 2008

Maringá - PR

Estou em Maringá.

E às vezes me falta ar

tal é a mágica,

tal é o peso

leve

do passado no presente.
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Os cheiros,
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recordações...
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(...)

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E perceber que aquilo que muda

machuca homicidamente, e o que fica

- ah o que fica -

Este afoga,

de

tanta

cor...
Maringá - cidade onde mora minha familia materna, morei aqui em 92.
na foto - a cidade coberta por névoa, e em destaque a Catedral de Maringá
em formato cônico

quinta-feira, 20 de março de 2008



"Põe um pouco de mel no teu sorriso,



como se morde a polpa de uma fruta.



Saia um dia caminhando pela estrada



como quem não quer chegar,
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só caminhar.



Se encontrar um rio,



se joga dentro dele



como se o corpo fosse feito de água fresca.



E se a vida doer dentro de ti,



deixe que rebente"


Texto de Carlos Alberto Soffredini

segunda-feira, 17 de março de 2008

"Eu só acredito
Em vento que
Assanha cabeleira
Quebra portas e vidraças
E derruba prateleiras
Se fizer um assobio esquisito
Na descida da ladeira
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Eu só acredito em chuva
Se molhar minha cadeira
De palhinha na varanda
Minha espreguiçadeira
Se fizer poça na rua
Acredito nessa chuva de peneira
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Eu só acredito em lama
Se for escorregadeira
Como casca de banana tobogã
De fim de feira
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'Hugo Henrique' já não acredita
Na força do vento
Que sopra e não uiva
Na água da chuva
Que cai e não molha
Já perdeu o medo de
Escorregar"
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música Descida da Ladeira - Alceu Valença
foto do filme francês Marquise

sábado, 15 de março de 2008

Eis o primeiro rompimento, da primeira casca
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As borboletas estão voando

A dança louca das borboletas

As borboletas estão girando

Estão virando sua cabeça

As borboletas estão invadindo

Os apartamentos, cinemas e bares

Esgotos e rios e lagos e mares

Em um rodopio de arrepiar

Derrubam janelas e portas de vidro

Escadas rolantes e das chaminés

Mergulham e giram num véu de fumaça

E é como um arco-íris no centro do céu

dança das borboletas - Alceu Valença/Zé Ramalho

segunda-feira, 10 de março de 2008

Desabafo
foi um abraço eterno
desses que duram segundos
e que te deixam sem fôlego
mas que te enchem de tanto fôlego
mais que todo o fôlego
que existe em todos os pulmões do mundo
e emudece
e faz o mundo parar
e girar mais rápido
.
e o cheiro
e a poesia
e a libido
.
e a sensação de algo tão familiar
de alguém que parece não ter sido seu
mas uma extensão de você mesmo
que se perdeu, e se achou
mas o "terror de te amar num sítio frágil como o mundo
mal de te amar neste lugar de imperfeição"
mas a dor de temer
aquilo que se teme quando dói...
mas...
mas...
mas...
citação entre aspas do poema Terror de te amar
escrito por Sophia de Mello Breyner Andresen

quarta-feira, 5 de março de 2008

"Certo ou errado
Quem não pula o muro
Não aprende a se arriscar
Não tá com nada
Certo ou errado
Quem não cai da escada
Não aprende a levantar
Não tá com nada
.
Você já sabe tudo
Princípio, meio e fim
E vive a me dizer
O que é bom ou mau pra mim
Mas o que serve pra você
Nem sempre vai me convencer
Eu tenho a vida inteira
E muito que aprender
E só eu é que escolho
A vida que eu vou viver
.
Certo ou errado
Quem não sai na chuva
Não aprende a se molhar
Não tá com nada
.
Eu sei que é prova de amor
Você não quer que eu
Jogue pra perder
Deixa a vida me ensinar
E eu vou provar
Pra saber escolher"
*
**
*
Bem, eu podia ter escrito uma crônica quilométrica a respeito dos milhares de conselhos tão acinzentados que tenho escutado, sobretudo daqueles que tomam sua vida como exemplo de sucesso para tentar me provar de como estive errado, o que faz com que cada vez mais eu descubra que nunca estive.
De resto, a música infantil explica tudo!

Música Certo ou Errado - Patricia Marx

terça-feira, 4 de março de 2008

OBSERVAÇÃO EXTRA

Neste exato momento o conto abaixo; Noites em Claro, acumulou em cada um de seus capítulos seis exatos comentários, o que no final compõe o número: 666

Será que o capeta gostou do conto?

rsrsrs

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

NOITES EM CLARO
- terceiro caítulo

Antes mesmo de conseguir dominar seus impulsos ela está ao lado do casal com a mira no rapaz. Com um tiro, estoura-lhe o tendão de Aquiles esquerdo, o joelho direito, o cóquis, um cotovelo e a boca do cadáver, o sangue empoçado espirra com o estouro. Ela o mantém vivo. Com a faca do bolo que está sobre a mesa, ela fatia os dois olhos da moça, rasga-lhe as bochechas até que o maxilar se escancare, fax um "X" em um dos seios, dividindo o mamilo em quatro e transforma o clitóris dela numa espécie de carne de encher lingüiça - ele assiste tudo, sem opção. Neste instante ela percebe que os olhos do rapaz estão se distanciando e o pavor de perdê-lo toma conta dos impulsos dela, se desespera, pede um balde d’água, não é atendida, então estapeia a cara do rapaz.

- Acorda, não morra, acorda!!! Pelo amor de Deus!

Ele recobra a consciência por segundos, exatamente o tempo que ela precisa para se despedir:

- Sua vida tiro eu! - ela diz e com o último tiro dado à queima roupa no coração o entrega ao infinito.

Vendo os dois pateticamente mortos ela respira aliviada, como nunca em dois anos. Pôde ainda perceber que as manchas de sangue acrescentaram uma linda tonalidade violeta, como um tye-dye à seda pura azul celeste da saia de seu vestido longo – tentarei cristalizá-las – pensou. E ao guardar o 38 (de verdade) na bolsa (cara) viu no fundo as chaves do carro e parou pra refletir um segundo em sua vida. Ela viera do nada! E conquistara toda a sua estrutura de vida, não fosse aquele maldito se fazendo de nuvem e tapando-lhe o sol, ela teria enxergado, antes, tudo o que ela era e tudo o que representava pra si mesma, tudo o que conquistara, amigos, estrutura, confiança, momentos maravilhosos que vivera.
E viverá!
Sua certeza era tanta de seu sucesso agora, que seu desejo se convertera nele estar vivo ainda, vivo para vê-la por cima, se diminuir e se arrepender num futuro muito próximo, pensando um pouco mais, ela percebeu que no fundo seu verdadeiro desejo era, na verdade, que ele estivesse vivo para ela provar pra si mesma, tal será seu sucesso, como não estará se importando nem um pouco com ele no futuro, ainda que ele se arrependesse ou não!
Neste momento, o polonês contornou com a mão gigante a fina cintura dela e soltou um suave:

- Vamos amor, temos uma longa vida de realizações pela frente!

Ela deu um passo em direção à saída, quando o telefone que estava em sua mão tocou e a trouxe de volta! Num surto, e ainda transpirando por conta do telefonema que fizera há segundos atrás, ela percebe-se realizada e satisfeita ao ver o quanto a sua imaginação fora longe (o telefone continua tocando), sente-se tranqüila agora, mas não pela sua consciência estar livre por não ter matado ninguém ou por não ter feito ninguém sofrer, mas sim por ela saber-se tão bem agora (o telefone continua) que terá tempo e segurança de sobra para transformar aquele inodoro e incolor numa mancha cinza do passado.
Ela atende ao telefone ainda em tempo e do outro lado escuta de um dos "doze" um sonhador bom dia, bom dia esse que ela retribui sem dúvidas com muito mais que um "obrigado, igualmente", enquanto pinta os lábios de vermelho.

FIM

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

NOITES EM CLARO
- segundo capítulo

Ela aponta para o ex e não se atreve a chamá-lo pelo nome. Ele vira, silêncio perpétuo.
- Ajoelhe-se e diga que me ama!!!

Ele assim o fez, com as mãos pra cima.
- Agora diga a ela que a ama!!! – referindo-se a atual.
Ele assim o fez.
- Agora ajoelhem-se de frente um pro outro e digam que se... (quase chora) amam!!!
O fizeram.
- Agora... (se cala, treme, enxuga as lágrimas sem borrar a maquiagem) agora amem-se!!!

Eles não compreenderam, assim como ninguém naquele salão. Um burburinho enche o recinto de um barulho irritante para quem está irritado. Um tiro no teto. Silêncio.

- Meu amor – ele diz ajoelhado e ainda assustado com o tiro – tente se acalmar, você bebeu um pouco demais, olhe as pessoas ao seu redor.

De fato, na festa predominavam senhoras e senhores de idade, crianças e casais felizes, todos com seus cargos sociais devidamente bem ocupad... de repente um tiro enfeita a mesa do bolo e a cara chorosa da aniversariante atrás da mesa com sangue e miolos, a “linda e como sempre insuportavelmente simpática” estava agora sem batimentos cardíacos e morta no chão ao lado dele. Ele, estático.

- Agora ame-a!!!

Ele num choro ensimesmado não responde, ou não ouve.

- A-ME-A!!! – ela engatilha a próxima bala em meio aos soluços e prossegue – E antes que me pergunte, nunca mais passarei uma noite sequer acordada imaginando o que fazem e como fazem, agora verei, e confesso que me parecerá bem nojento. Nunca mais sentirei frios na barriga por conta do infinito, desgraçado, maldito desejo que sentem um pelo outro.

Silêncio perpétuo ainda. Ele, aos prantos, começa a baixar suas calças e subir a saia do cadáver enquanto a coloca em “posição de parto”, deita sobre ela, mas mantém tronco afastado, como quem tenta se segurar longe do chão numa flexão - não tem coragem de olhá-la no rosto desmiolado e ensangüentado.
Vendo a cara dele de infinito nojo, ela quase pensa em baixar a arma, o espírito dela fora inundado por uma sensação que a quilômetros de distância lembraria a sombra do que se pode chamar de – talvez – piedade, vendo agora que ele não mais gosta dela como antes, que agora sente nojo. Era quase o bastante pra ela, e seus braços com a arma em punho, aos poucos cediam à força da gravidade, quando o corpo dele também cedeu, seus músculos estavam fartos de fingir foder aquele cadáver e deitou-se sobre o corpo. A gravidade para ela perde a força e lá está a mira no alvo novamente, quando num gesto de carinho jamais visto por ela, ele beija a boca ensangüentada do cadáver, e balbucia, ainda aos prantos:


- Te amo!

Antes mesmo de conseguir dominar seus impulsos ela está ao lado do casal com a mira no rapaz.


CONTINUA...

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

NOITES EM CLARO
- primeiro capítulo

“Alô, só pra te desejar um bom dia”.
Esta frase era o que permeava na cabeça dela momentos antes de usar o celular, que naquele momento repousava em sua mão direita, a espera. A adrenalina que fazia seu sangue parecer lava a deixava trêmula e excitada, excitação que em questão de segundos tornara-se ódio, quando da resposta dele: “obrigado, igualmente” – cinza assim.
Imediatamente ela abre sua arma secreta, a mais poderosa, que infalivelmente entre todas aquelas folhas cheias de nomes, números e letras na seqüência do alfabeto, a fariam recordar de um bom recurso, afinal, nesses dois anos desde o divórcio, sua teia não dera trégua. E os troféus que ela atraíra são diversos, inúmeros. Dentre os quais:
- O executivo: o do Chrysler, de Bariloche, do Terraço Itália, dos vinhos italianos, dos diamantes – que mora infinitamente longe;
- O bicho-grilo: o das trilhas, do olho de safira, da lua, do banho nu na mata, do sexo selvagem, do esoterismo, das viagens surpresa – que transpira maconha;
- O treinador: o bombado, esculpido, queixo quadrado, educado, cheiroso, baladeiro, engraçado – broxa.
E assim a lista se estende a doze, doze que são melhores, excluindo o resto. E analisando bem, ela encontra o perfeito:
- O importado: o polonês, 1,98m, simpático, português com sotaque, faz projetos sociais no Brasil, lava, cozinha (e como cozinha), passa – cavalheiro demais.
É este!
E é com esta arma em punho que decide ir ao aniversário da afilhada, qual o padrinho é o ex e, portanto, estaria lá. Mas para a surpresa dela, ele, o ex, o do “obrigado, igualmente”, apareceu com ela, ainda, ainda juntos, ela linda e como sempre insuportavelmente simpática, e eles como sempre insuportavelmente felizes (ao que parecia).
Terminado os parabéns, momento auge de uma festa de crianças, ela cuidadosamente abre a bolsa (cara) e saca um 38 (de verdade), sabia que viria a calhar um dia.

- Ei!!!
Aponta para o ex e não se atreve a chamá-lo pelo nome. Ele vira, silêncio perpétuo.
- Ajoelhe-se e diga que me ama!!!
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CONTINUA...

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Coloque a música antes de ler o post!
_


Thelma e Louisse havia acabado há quinze minutos.
Eu estava sozinho no quarto prestando atenção em como a fumaça do meu cigarro dançava impecávelmente ao som de "Everybody's Gotta Learn Sometimes"*.
Era 3h33 da manhã.
Eu estava mudo.
No meu coração um mix de angústia, sonhos e espectativas me faziam perder o sono.
Tanto pra resolver.
Estou para a vida um bailarino, assim como a fumaça para a música. Mas no meu caso, diferente da fumaça, dói quando o passo perde o compasso, quando o ritmo perde o tino, como Chico dizia:

"Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu
A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega o destino pra lá"

Essa vida cheia de nuances e equívocos me fortalecem bem! Mas é fato que não ter seu destino nas mãos dói, e dói.

Mas me pergunto que tipo de pessoa eu seria se tivesse vivido uma vida regrada e matemática até aqui? É certo que as partes mais legais de se lembrar e contar de uma viagem são seus equívocos e surpresas e eis minha vida, madrugada a madrugada...

Caso queiram saber a quantas anda a minha vida, basta que acendam um cigarro, deixem a fumaça dançar ao longo da madrugada ao som desta música, acompanhada pelo derradeiro gole de um merlot que pinta de vermelho o fundo de uma taça, gole esse que por sinal tomarei agora, antes de dormir - sem escovar os dentes.



*Everybody's Gotta Learn Sometimes:
música tema do filme O Brilho Eterno
de Uma Mente sem Lembrança

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008


idealização: Murillo Marques
execução e direção de fotografia: Hugo Henrique
direção artística: Marcela Primo
rsrsrsrsrsrsrsrsrsrs

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

"Não.
Não é possível
criar um poema
nesse escritório.
O grampeador é feio
a mesa é velha
os armários, cheios.
Na minha cabeça
há umas idéias
soltas e meu olhar
num esforço hercúleo
poderia até ver beleza
sob o encardido
das persianas.
Mas, por tédio
e cansaço e
falta de vontade
a tarde escoa
como papel A4
quando o fax dá pau:
até esgotar-se
e sem poesia."
-
(sei que somos mais)

autor desconhecido
-
enviado pra mim por Elton

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

DOA A QUEM DOER

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

*
*
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*
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"Um lugar não definido, é o lugar de todas as sensações, onde não há nada a perder, é sair de dentro da caverna de platão!!!"
-
Murillo Marques
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*
*

sábado, 2 de fevereiro de 2008

rosa, borboleta, noite, oceano

Esta rosa nunca mais foi regada - pensava - mas ainda cheira.
Já beirava as 5h da manhã, ele estava semi nu, a barba por fazer tocava a fronha que tocava o travesseiro que tocava o lençol que cobria a king-size que abrigava outras duas pessoas também semi nuas. O sono já havia carregado para longe uma delas, ele por sua vez, era acariciado infinitamente, incansávelmente e se perguntava de costas para as carícias de frente para a noite paulistana do outro lado da janela: "como pode não se cansar de movimentar-se desta forma?"
Uma estrela, somente, brilhava sob o céu de Perdizes ou Alto da Lapa ou Sumaré, que seja, acompanhada pelo pisca de uma torre solitária - "São Paulo, mágica São Paulo, mágica e perfumada noite paulistana". O cheiro de São Paulo à noite lembra a ele, sabe-se lá por que cargas d'água encontros, cigarros, gente nova e aquela respiração ofegante que se tem antes de transar pela primeira vez com alguém. Por isso andou trocando a noite pelo dia; paixão louca pela noite, pelas paixões da noite.

Ainda que aquela rosa cálida no criado cause incômodo ao cheirar tanto, ele não mais se atreverá a movimentá-la, pois sob três derradeiras pétalas secas, hoje bordôs portanto e não mais vermelhas como outrora, há um caule repleto de espinhos e espinhos e espinhos. "Não mais tocá-la", ordenou a si mesmo ao ferir-se pela última vez, "não mais tocá-la". E ainda que aquele odor incomode, ainda que remeta a passeios em casal com o cãozinho na beira da praia, resta-lhe aquele perfume, aquele perfume urbano e noturno que o faz pensar no mundo lá fora, que tem sido tão receptivo, nos vinhos e queijos e afins.
A fronha com insetos forçou-o a se lembrar da crisálida que vira no Trianon na mesma semana, "quando sairá, será?"
E o estado de hipnagogia que agora dominava sua mente, fez emergir das lembranças aquele oceano fresco, cheio de mistérios que pede um mergulho profundo, oceano esse que já o fez despir-se, "não mais mergulhar com armaduras" - prometeu, e quase mergulhar.
E lá estava ele acariciando seus desejos com detalhes do mergulho, quando aquelas implacáveis/incansáveis carícias dominaram seus sentidos, entregando-o aos braços do inconsciente enquanto as últimas pétalas da rosa, sem vida, sem mágica, em seu último suspiro, tocavam o frio e real chão de mármore acinzentado.

na foto:

vista panorâmica do banco Santander

(antigo Banespa) do Vale do Anhangabaú