Trechos de O Pássaro do Poente de Carlos Alberto Soffredini
Trechos de O Pássaro do Poente de Carlos Alberto Soffredini
... e se seguiram histórias de borboletas e margaridas, e a noite foi mágica. . O vinho adormecia os lábios, o fondue salgava a língua, e adoçava, e salgava. O cigarro... ah o cigarro... me entende quem se entrega a este prazer-fatal-prazer: um isqueiro falta, um gesto educado, uma pergunta, mundos novos, universos inteiramente novos ávidos para desbravar constelações e galáxias um do outro. Tantos desconhecidos numa noite jovem, tantas confidências, risos e particularidades numa madrugada outrora virgem. O instigante mundo europeu de um, a sonhada América Latina de outro, e a música clássica, e os protestos estudantis e os assuntos que a noite nos trazia à memória sem tempo a perder. E a música tocava, e era cantada e cantada. E a mágica... uma mágica ardendo tão fundo na alma, o motivo pelo qual existo. ![]() Outra noite - outro vinho - outros cigarros - histórias de borboletas e novos caminhos - de margaridas e surpresas - de sinais. . Uma vez, houvera entre nós, ainda que poucos soubessem, ao sul, além das fronteiras, mãos doces e talentosas, mãos latinas e francesas. Mãos estas que não poupavam dedos e sonhos para acariciar a audição e o coração de uma doce menina, sua neta, mãos talentosas, moldadas em alabastro com um toque de sonhos e mais sonhos. Era de Chopin a música que as ligava num estreito fio de alma e pra alma, e foi Chopin que tocou no aniversário de sua última despedida. Uma mão sensível tocava o piano de cauda, as mãos daquele que cedeu o espaço tão carinhosamente e sem se dar conta da saudosa melodia que tocava. . Ela percebeu saudação da avó, nós nos emocionamos. Era qual uma benção, era uma espécie de mágica que rondava a profunda vista noturna do Ibirirapuera, eram histórias sensíveis, de sonhos, de mágica. Histórias pra poucos. . Porque: "Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra". |
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
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Não sei por onde vou,
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Não sei para onde vou
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Sei que não vou por aí!
Cântico Negro - José Régio
Imagem do filme "Um Sonho de Liberdade"

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(...)
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E perceber que aquilo que muda

"Eu só acredito
Sumaré, que seja, acompanhada pelo pisca de uma torre solitária - "São Paulo, mágica São Paulo, mágica e perfumada noite paulistana". O cheiro de São Paulo à noite lembra a ele, sabe-se lá por que cargas d'água encontros, cigarros, gente nova e aquela respiração ofegante que se tem antes de transar pela primeira vez com alguém. Por isso andou trocando a noite pelo dia; paixão louca pela noite, pelas paixões da noite. Ainda que aquela rosa cálida no criado cause incômodo ao cheirar tanto, ele não mais se atreverá a movimentá-la, pois sob três derradeiras pétalas secas, hoje bordôs portanto e não mais vermelhas como outrora, há um caule repleto de espinhos e espinhos e espinhos. "Não mais tocá-la", ordenou a si mesmo ao ferir-se pela última vez, "não mais tocá-la". E ainda que aquele odor incomode, ainda que remeta a passeios em casal com o cãozinho na beira da praia, resta-lhe aquele perfume, aquele perfume urbano e noturno que o faz pensar no mundo lá fora, que tem sido tão receptivo, nos vinhos e queijos e afins.
A fronha com insetos forçou-o a se lembrar da crisálida que vira no Trianon na mesma semana, "quando sairá, será?"
E o estado de hipnagogia que agora dominava sua mente, fez emergir das lembranças aquele oceano fresco, cheio de mistérios que pede um mergulho profundo, oceano esse que já o fez despir-se, "não mais mergulhar com armaduras" - prometeu, e quase mergulhar.
E lá estava ele acariciando seus desejos com detalhes do mergulho, quando aquelas implacáveis/incansáveis carícias dominaram seus sentidos, entregando-o aos braços do inconsciente enquanto as últimas pétalas da rosa, sem vida, sem mágica, em seu último suspiro, tocavam o frio e real chão de mármore acinzentado.
na foto:
vista panorâmica do banco Santander
(antigo Banespa) do Vale do Anhangabaú
Quem diria que a sensibilidade estaria lá? Ardente como areia de praia e asfalto de cidade. Quem diria que entre tantas dúvidas haveria um olhar tão sincero.
"De onde estava, não conseguiria ver os olhos da moça. De onde estava, a moça não conseguiria ver os olhos dele. Mas as memórias de cada um eram tantas que ela imediatamente entendeu e aceitou, desaparecendo da janela no exato instante em que ele atravessou a avenida sem olhar pra trás."
os olhos ressecados, de lágrimas que molharam e se foram! Parece fútil e confesso! Parece fútil, sim! Mas chorei ao ouvir Unravel, ela tocou Unravel! Ela podia ter tocado qualquer que fosse a música mas logo essa que eu amo! Então me machucou! Me machucou o fato de eu ter seis vezes o valor da entrada (inteira) do show na conta e não poder usar por dívidas passadas, por resolver problemas que são em partes meus mas que eu tenho que arcar com os de todas as partes! Enfim... assim cresço! Assim amadureço!Assisto com muita tristeza
a pena da aspereza
dilacerando a beleza
de uma linda sinfonia.
A aguarrás de juízes,
ciumentos, inflexíveis,
descolorindo as matizes
de uma linda pintura
só porque não gostam
da assinatura.
.
Mas vai como uma bailarina,
com a inocência de menina,
dançando em volta do sol,
a grande Mãe Terra.
Enquanto muitas nações,
governos, religiões
ensaiam a dança da guerra.
.
Na verdade a bola azul,
quase nunca foi amada,
é sempre penalizada.
Tem um trabalho enorme,
dedicação e talento
pra preparar a mistura
juntar os seus elementos
para dar forma as criaturas,
e elas depois de paridas,
desconhecem a matriarca
e dizem mal agradecidas
que a carne é fraca.
E quando o planeta gera um Avatar,
um iluminado assim como o Nazareno,
tem logo quem se apresenta
com conhecimento profundo
e diz:
“Não é desse mundo, só pode ser extraterreno.”
.
É difícil entender
porque é que o homem
até hoje
cospe no prato que come.
Alguma religiões
não sei por qual motivo
dizem que a terra é um território
com vocação pra purgatório
não passa de sanatório,
e que nós só seremos felizes longe dela
bem distante
lá onde os delirantes
chamam de paraíso.
.
Altay Veloso